Em dez contos passados na mesma rua, sons atravessam paredes e fazem personagens distantes participarem da vida uns dos outros. Luna fala sobre ritmo, oralidade e o que uma vizinhança escolhe escutar.
O teatro continua presente na sua prosa?
Sim, principalmente na escuta. No palco, uma pausa muda o sentido de uma frase. Nos contos, trabalho para que o leitor perceba o que acontece antes da resposta, o ruído de fundo e a distância entre quem fala e quem ouve.
Por que todas as histórias acontecem em uma noite?
A unidade de tempo cria pressão e proximidade. Enquanto uma personagem toma uma decisão, outra escuta uma porta bater. O leitor reconhece esses ecos e monta um bairro maior que qualquer conto isolado.
Como você escolheu os sons do livro?
Comecei pelos sons domésticos: talheres, rádio, água no quintal, uma cadeira arrastada. Eles carregam rotina, mas podem anunciar mudança. Queria que a rua tivesse uma partitura feita de gestos comuns.
A mangueira do título funciona como símbolo?
Ela é um ponto de encontro e uma testemunha sem voz humana. Faz sombra, derruba frutos, abriga conversas. Cada morador projeta nela uma lembrança diferente, então a árvore mantém o bairro unido sem resolver seus conflitos.
O que um conto precisa deixar depois do ponto final?
Não uma explicação, mas uma vibração. Algo pequeno que continue ressoando e faça o leitor olhar outra vez para uma cena que parecia encerrada.
Entrevista fictícia produzida para apresentar as possibilidades editoriais do Portal Vitrine Cultural.