A cidade de seu romance não vê chuva há treze anos. Em vez de apostar em um herói solitário, Tomás Eiji Marçal acompanha uma comunidade obrigada a aprender novas formas de cooperação.
Por que escrever sobre uma cidade sem chuva?
Porque a falta torna visíveis estruturas que normalmente ignoramos. Quem recebe primeiro, quem decide, quem cuida da manutenção? A água me permitiu falar de infraestrutura como uma relação humana, e não apenas técnica.
Sua experiência com mapas muda a maneira de narrar?
Muito. Um mapa sempre seleciona o que mostrar e o que deixar fora. Na ficção também fazemos isso. Tento observar quais bairros, trajetos e pessoas uma história costuma apagar e construir o enredo a partir dessas margens.
O romance é pessimista?
Ele reconhece perdas reais, mas recusa a ideia de que o futuro já está decidido. Esperança, para mim, não é esperar que tudo dê certo; é criar condições para agir junto quando não existe garantia.
Como equilibrar ciência e personagem?
A informação só permanece quando muda uma escolha. Em vez de longas explicações, procuro mostrar um dado climático alterando uma fila, uma refeição, um projeto ou a confiança entre duas pessoas.
O que significa “aprender a chover”?
Significa abandonar a fantasia de controle total. A cidade aprende a receber, distribuir e cuidar. A chuva volta a ser fenômeno, mas também vira uma imagem de reciprocidade.
Entrevista fictícia produzida para apresentar as possibilidades editoriais do Portal Vitrine Cultural.