Em Marés de Terra Vermelha, o retorno de uma mulher à cidade natal coincide com uma enchente que revela cartas escondidas. Conversamos com a autora fictícia sobre escuta, memória e paisagem.
Quando você percebeu que o rio seria mais que um cenário?
Quando entendi que cada mudança da água alterava o que os personagens podiam fazer, lembrar e esconder. O rio não comenta a trama de fora; ele reorganiza distâncias, cria encontros e obriga Elisa a permanecer onde pretendia apenas passar.
Como a história oral entrou no romance?
Pela atenção às versões. Em uma entrevista, duas pessoas podem recordar o mesmo dia de maneiras incompatíveis e, ainda assim, ambas dizerem algo verdadeiro. Quis levar essa tensão para as cartas e para as conversas familiares.
Você escreve a partir de um plano?
Tenho um mapa emocional, não um roteiro rígido. Sei qual pergunta acompanha cada personagem. As cenas aparecem quando essas perguntas se chocam, e muitas vezes a paisagem oferece a forma do encontro.
O que mais lhe interessa na ideia de retorno?
A diferença entre voltar a um lugar e voltar a uma versão de nós mesmos. Elisa procura a casa da infância, mas encontra uma cidade que mudou e uma memória que nunca foi tão estável quanto imaginava.
Que leitura você espera provocar?
Uma leitura atenta aos silêncios e aos detalhes. Gostaria que o leitor terminasse o livro pensando no que uma família decide guardar e no que a água, às vezes, decide devolver.
Entrevista fictícia produzida para apresentar as possibilidades editoriais do Portal Vitrine Cultural.